
sábado, 4 de abril de 2009
Aparência - aicnêrapA

quinta-feira, 2 de abril de 2009
Eu e eu
Tão frágil, tão pequeno
Todo quebrado, sinto um medo horrível
Eu quis não mais estar neste lugar
Que a cada dia que passa
Me devora numa cela incabível.
Todas aquelas partes por mim enterradas
O medo novamente visitou
Sobretudo as sequer vividas
Que de alguma forma caleja meus olhos
E rouba até mesmo aquilo que não restou.
Apenas os meus, gangrena e necrose
Segredos que já foram condenados
Me tornando só, culpado sob julgo eterno
Acampado em um terreno triste
Na companhia alguns pesadelos macabros.
Covarde sou eu que debanda daqui
Covarde é você que foge de si mesmo
Que em dois tempos quebra meu espelho
Tornando-nos uma vítima.
Vítima do próprio desprezo.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Um caso do acaso (parte 2)
Duda estava certa. O café de Samuel de fato era fantástico. Gabriel bebeu aquilo como um forte estimulante, que aqueceu seu corpo trêmulo pelo frio. A cozinha era pequena, abrigando uma velha geladeira, um fogão vermelho e um balcão estilo americano que parecia ser acoplado aos armários de cor esmaltada. Duda estava no banho. Sentados à mesa, Gabriel e Samuel conversavam de forma amigável.
– Engraçado – emendou Gabriel – você nunca apareceu lá na universidade, né?
– É. Na verdade, faz só duas semanas que vim morar com Duda. – Samuel encheu sua caneca novamente daquele delicioso café. Sua expressão era calma e ele parecia dominar bem o frio que fazia seus mamilos arroxearem. Seus lábios grandes e túrgidos, também detinham a mesma cor púrpura. – Tenho alguns planos e também precisava de novos ares – explicou ele.
– Duda está dois períodos a minha frente e na verdade só a conheci porque ela foi divulgar um evento da sua turma no início do semestre na minha sala. Sua irmã é muito conhecida na universidade, mas nem temos tanto contato – Gabriel estranhou sua própria voz ao perceber que Duda, mesmo sendo tão popular, não era uma de suas melhores amigas. E estar ali, dentro de sua cozinha, lhe causava certo desconforto. Não fosse pelo acaso, o acontecimento nada comum da noite passada, provavelmente Gabriel não teria outra oportunidade de estar na casa de Duda. Mas agora, ele percebia que aquela garota magra e sorridente se mostrava alguém muito mais familiar do que qualquer um dos outros colegas que Gabriel possuía – que nunca passaram de meros colegas.
– Minha irmã é alguém muito obstinada e temos idéias diferentes, mas sempre nos demos bem. Seu carisma conquista muitos – pausou Samuel olhando para o nada – mas tenho a impressão de que ela não é completamente feliz – disse com um olhar profundo, desviando seus belos olhos verdes para a janela, talvez tentando desconversar sua última afirmação.
Gabriel, naquele momento, atreveu-se demorar um pouco mais olhando para Samuel, e de imediato percebeu que sua própria respiração acelerou. Ele quis negar o efeito caótico que uma pessoa do mesmo sexo, seminu, pudesse lhe causar. Gabriel lutou contra seus conceitos e regras erráticos fechando e apertando os olhos com toda força. Tentou pensar em outra coisa, mas logo foi traído pelo reflexo do barulho de algo se arrastando na mesa, que fizeram seus olhos se abrirem imediatamente
– Quer mais café? – As palavras de Samuel soaram como um violino afinadíssimo.
– Por favor – respondeu Gabriel sem muita reação àquele gesto, esticando sua caneca. Samuel voltou a olhar para a janela. Ele parecia viajar pela paisagem úmida e cinza lá fora. Gabriel deu um gole e começou a pensar no que diria no minuto seguinte. Involuntariamente, seus olhos caminharam novamente para a figura que estava à sua frente, despida e angelical. A aparência de Samuel era suave, mas carregava uma expressão centrada. Os detalhes de seu rosto eram muito homogêneos e seus cabelos formavam cachos amendoados que alcançavam seus olhos e preenchiam toda a nuca. Sua pele lembrava o leite, branquíssimo e pêlos dourados cobriam todo seu peito e braços. Contemplar Samuel era como assistir um filme de ficção, de modo que Gabriel não compreendia muito bem o que aquilo significava. Uma luz filiforme pulsava dentro de si e aquilo ainda era novo para Gabriel.
O olhar de Gabriel era arredio, desconfiado, porém observador. Naquele instante de calmaria, de forma repentina, Duda irrompeu pela cozinha segurando uma colcha marrom abraçando Samuel de forma carinhosa.
– Você vai acabar apanhando uma gripe, seu branquelo. – Brincou a irmã de forma calorosa.
– Ainda não consegui me acostumar, tudo aqui é tão quente, parece verão. Em Pelotas é muito mais frio e você sabe disso.
– É eu sei. Foi mais um motivo pra eu dar o fora daquele lugar. Só mesmo você e a mamãe pra agüentar. Aqui, pelo menos faz um sol mais quente.
– Não diga isso, mamãe se chatearia. E eu to gostando muito daqui. Quero aproveitar pra ficar um pouco mais colorido. – Sorriu Samuel de forma acanhada, escondendo dessa vez seus joelhos brancos sob a colcha.
Gabriel ainda se familiarizava com os últimos acontecimentos. Sentiu-se embaraçado e voltou a tocar no assunto da noite passada.
– Eu vomitei no seu carro Samuel? – Perguntou Gabriel tentando transparecer uma ponta de graça em sua voz, amenizando o peso daquela dúvida.
– Não – disse prontamente Samuel seguido de um sorriso maldoso. – Mas se tivesse, eu teria te jogado no Itajaí-Açu.
Gabriel gargalhou de forma espontânea. Mas entendeu que o fato de não ter vomitado, não amenizava o vexame que havia passado.
– Meu Deus, acho que não nasci pra beber. E tenho certeza que se eu insistir nisso, vou acabar fazendo coisas piores – lamentou Gabriel.
– Com certeza você não se lembra, mas fiquei muito curiosa pra descobrir porque você ficou repetindo “vou conseguir, vou conseguir”, enquanto te arrastávamos pro carro. – alfinetou Duda, que parecia intrigada e ao mesmo tempo sabedora do significado daquilo, entretanto, querendo incitar uma resposta dentro da cabeça de Gabriel.
Droga. Gabriel sentiu seu estômago gelar. Lembrou-se do convite de Cézar, dizendo que ele precisava sair com a galera e que uma boa foda iria lhe fazer bem. Gabriel, ainda virgem, viu uma oportunidade de pôr fim em muitas dúvidas que pairavam sobre sua cabeça. Nunca havia tido sorte com garotas, talvez pela timidez e baixa auto-estima. Foi então que viu uma grande chance de reafirmar a si mesmo, aquilo que ele acreditava ser verdade. Eu sou homem, vou conseguir! Mas Gabriel se sentiu frustrado, por não conseguir consumar o desafio daquela noite. Izadora pareceu-lhe tão atraente e tudo estava indo tão bem. Mas uma ansiedade cavalar fez com que ele se detivesse em medos e incertezas – uma paralisia segurava até mesmo sua respiração. Estar naquela mesa com Cézar e seus súditos alienados, era uma contradição muito maior do que aquela que Gabriel acreditava conseguir enfrentar. Ele se sentiu um irracional, convicto de que estava no lugar errado e tentando fazer algo pelas vias erradas. Gabriel também se sentiu iludido por ter acreditado que os drinks daquela noite lhe pudessem amenizar a agonia que o abatia em estar ao lado de Izadora, beijando seus lábios, sem ao menos sentir uma gota de afeto por ela. Aquilo ia contra tudo que Gabriel acreditava.
– Vou conseguir beber mais uma – explicou Gabriel de forma pouco convincente. Um sorriso amarelo se estampou em sua cara, mas foi dissipado pelo constrangimento por saber que aquilo era uma péssima mentira. Mas insistiu – é como eu disse, não tenho costume de beber, e eu estava meio que teimando, pra provar que era capaz de beber mais uma. – Remendou.
Duda olhou com uma expressão de desdém misturada a uma ironia para Gabriel, mas nada disse. Ainda agarrada com Samuel, resmungou.
– E aí maninho, você vai ou não vai me levar no Bistrô?
– Claro que vou. Me dê só um minuto, pra me vestir.
– Tem certeza que você não quer ficar pra almoçar com a gente? – Suplicou ela ao irmão. – Você também Gabriel, é meu convidado. – Disse Duda com um sorriso animador.
Gabriel ficou sem direção. Era óbvio que se houvesse qualquer chance de passar mais algumas horas com Samuel, ele aproveitaria. Mas diante daquele convite sem resposta por parte de Samuel, Gabriel ficou pensativo. Mas arriscou.
– Claro Duda, porque não? Estou precisando de reposição vitamínica. – Anunciou Gabriel com duas medidas de expectativa, na esperança que aquela motivação contagiasse Samuel.
– Não, obrigado. Preciso encontrar algumas pessoas. Recebi uma ligação importante ontem a noite. Talvez seja a minha oportunidade. – Explicou Samuel de forma urgente. Havia um efeito inquietante no olhar de Samuel.
Ele não vai. Gabriel logo captou que talvez aquilo fosse um sinal para desfazer aquele nó de expectativa sobre uma aproximação maior com Samuel. Uma aproximação que só fazia sentido se não fosse explicada.
Gabriel visivelmente descaiu o semblante. Mas tentou ser otimista e se esforçou para animar seu próprio comportamento, por perceber que Duda era uma exímia observadora, e mais cedo ou mais tarde, poderia abordá-lo com as tais perguntas sobre suas preferências quanto ao sexo oposto. Gabriel também pensou naquela atração singular que o impelia, quando Samuel estava ali, tão próximo. É coisa da minha cabeça, melhor eu não alimentar nada.
Dentro do carro, Gabriel observava os irmãos no banco da frente. Duda usava uma boina de tricô que a deixava mais meiga. Samuel trajava uma calça xadrez e uma jaqueta marrom. Por baixo, via-se uma camiseta cor creme, que delineava seu abdômen retilíneo. Seus cabelos agora estavam levemente úmidos e seu All Star surrado estava desamarrado.
– Você não vomitou ontem aqui no meu velho Renault... Consegue segurar hoje também? – perguntou Samuel se virando para o banco traseiro com um sorriso iluminado.
Gabriel sentiu um aroma de menta pulverizar todo o veículo. O hálito de Samuel era completamente refrescante, como se houvesse cristais de gelo farfalhando enquanto ele falava. O cheiro era bom.
– Imagina. Meu estômago está completamente vazio. Até mesmo o seu café já foi pras cucuias. – Confirmou Gabriel entrando na brincadeira.
Logo eles dispararam em direção ao Mercado Velho, local muito freqüentado pelos estudantes da universidade local. Gabriel tentava pensar em qualquer outra coisa que distraísse sua atenção e não pensar no sorriso de Samuel, ao mesmo tempo em que se permitia desfrutar dos poucos minutos que ainda estaria em sua companhia dentro do velho Renault.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Um caso do acaso
A garrafa se espatifou em centenas de cacos. O riso inundou o salão. Havia muita fumaça e alguns olhares acompanhados de sorrisos distorcidos. A imagem que Gabriel via era de um véu fumê que recobria todo aquele lugar. Uma estranha sensação de torpor pesava sua cabeça e agora, seu estômago começava a embrulhar.
- Seu idiota!
- Ahh, relaxa Biel. Deixa eu te pagar outra bebida.
- Não quero – devolveu com um olhar de reprovação. Tentou focar a imagem que dançava do homem à sua frente. Sem sucesso. Sua cabeça agora doía e pulsava. Levantou-se da mesa num ímpeto, e caminhou errante em direção à saída mais próxima. Com apenas três passos, Gabriel não conseguiu conter o vômito, que saiu aos jatos atingindo quatro pessoas que estavam por ali.
- Você não é homem não, seu retardado? Olha o que você fez – rosnou seu colega de faculdade se levantando da mesa imediatamente. O rapaz alto se aproximou de Gabriel e o segurou pelo colarinho de sua jaqueta. Havia um ódio que fervia seus olhos. – Sua bicha! Eu trouxe a melhor amiga da minha namorada pra você comer e você me faz isso? – Sussurrou com severidade ao encostar sua testa nos cabelos de Gabriel.
Os olhos de Gabriel retorciam dentro da órbita e sua cabeça mancava aos solavancos nas mãos de Cézar. Naquele momento, tentou se perguntar o que estava fazendo naquele lugar. Tentou achar sentido naquela tentativa malsucedida de paquerar Izadora. Definitivamente, soube que ali ele era um peixe fora d’água. Ele sentiu todo o seu corpo sob a pressão de uma bigorna gigante, que esmagava até mesmo sua consciência. Tentou ainda balbuciar algumas palavras, mas antes mesmo que pudesse vocalizar um gemido, desmaiou num sono profundo e escuro – fora jogado em seu limbo pessoal, cheio de seus pensamentos inúteis e rejeitados.
O dia começava a clarear e uma dor violenta açoitou todo o corpo de Gabriel. Entre o consciente e o irreal, ele tentou situar-se dentro daquela sala ainda mergulhada na penumbra. Sentiu seus braços pesados, como se estivesse sob efeito de um opióide superpotente. Gabriel girou o pescoço e apertou os olhos com força, tentando segurar uma dor que rompia dentro de sua cabeça. Trincou os dentes e ficou imóvel, esperando que aquela agonia cessasse. Ao abrir os olhos novamente, percebeu que havia uma silhueta que estava a poucos metros, encostada numa parede cheia de figuras. Aquilo pareceu macabro. Ainda estou bêbado.
Aquele espectro começou a se aproximar, e Gabriel notou que uma fumaça saia de suas mãos. Gabriel permaneceu imóvel e sua pupila agora era redonda como uma laranja. Aos poucos, aquele ser sobrenatural, pareceu-lhe um tanto familiar. Duda?
- Você está melhor? – agachou a figura feminina de cabelos sedosos que enfeitava todo o seu ombro indagando com serenidade. Ela segurava uma caneca de porcelana. Pareceu chá de hortelã.
Imaginando que seu hálito de fel sairia pútrido, Gabriel apenas meneou com a cabeça. Aquilo não parecia nem sim nem não. Mas de alguma forma ele quis que transparecesse que ainda havia vida ali.
- Toma isso, em poucas horas você se sentirá bem melhor – A garota estendeu a mão esquerda, ajudando Gabriel a fletir o pescoço. Com aquele gesto, Gabriel sentiu uma vergonha incontrolável queimar seu rosto.
Três horas haviam se passado. O sol já fixo lá no alto iluminava toda aquela sala, porém não aquecia o suficiente o gélido ambiente. Gabriel havia recobrado toda a consciência. Seu corpo agora parecia completamente restabelecido, porém cansado. Teve medo de sentar, imaginando que tudo voltaria a girar. Mas aos poucos foi se levantando e seus olhos percorreram todo o cômodo. O chão estava gelado e havia um carpete aveludado bem no centro da sala. Firmando os pés vacilantes, Gabriel agora erguia seus 1,75 metro. Ao olhar para esquerda, viu que a janela dava para uma campina recoberta pela geada. As cortinas vermelho-escarlate davam um contraste aconchegante ao lugar. Gabriel voltou seu corpo para o centro da sala e se assombrou quando fitou sua silhueta desgrenhada no espelho em forma de concha, pendurado acima de uma grande cômoda de madeira escurecida. Sua pele estava gasta e seu cabelo parecia um tornado. Esfregou os olhos, desembaçando a imagem turva que refletia no espelho. Mas algo chamou sua atenção em cima da cômoda. Gabriel se aproximou tentando reconhecer quem eram as figuras nos porta-retratos. Duda e...
- É meu irmão – disse a mesma voz suave de horas atrás. – Bom dia.
- Bom... – Gabriel girou em seus calcanhares e fitou a bela moça que estava no umbral da cozinha, segurando as fitas coloridas que serviam de biombo. Após olhar diretamente em seus olhos, esforçou-se para dizer o mesmo, mas foi tomado por uma onda de desorientação. Ele agora sabia que de alguma forma, a madrugada anterior havia lhe dado um tapa na cara. Agora, estava ali, se sentindo um verme, um vagabundo. Seus olhos agora alcançavam o chão, talvez por vergonha. – Duda, eu...
- Gabriel, você não tem que dizer nada. O Cézar é um idiota. Aliás, eu não sei o que você estava fazendo com ele naquele lugar. Logo você que não leva muito jeito pra isso.
Gabriel voltou a olhar diretamente para o rosto de Duda. Aquela afirmação pareceu-lhe um pouco perturbadora.
- Ontem, depois que você apagou, o Cézar reuniu seu bando e vazou do bar. Eu e minha amiga, com ajuda do garçom, te tiramos dali. Liguei pro meu irmão... – Duda fez uma pausa, como se aquele detalhe tivesse um significado forte. – E te trouxemos aqui pra casa.
- Duda, eu não sei nem como agradecer. Na verdade, acho que te devo desculpas antes de tudo.
- Gabriel – a garota que trajava um suéter rosa-bebê se aproximou do garoto tocando-lhe o ombro. Seu olhar era de muita benevolência. – Eu te observei por algum tempo ontem no bar, enquanto estava com o Cézar e aquele povinho, e disse a mim mesma "ele não precisa fazer isso". Esqueça as desculpas que me deve ou a gratidão que queira retribuir e faça um favor a si mesmo...
- Duda, eu não sei do que você está falando. – Interrompeu de forma súbita. Gabriel sentiu seu corpo todo gelar. A temperatura naquela manhã beirava os 14° C, mas seu coração havia recebido uma injeção à 0° C, fazendo um líquido glacial o paralisar. Gabriel não foi capaz de fitar Duda nos olhos. Ele nunca havia tocado nesse assunto com ninguém. Como ela pode ser tão atrevida? Gabriel sentiu uma vontade incontrolável de sair pela porta e fingir que nada daquilo estava acontecendo.
- Olha Gabriel – tentou explicar com aprovação. – De fato, não tenho nada a ver com sua vida. Eu só te digo isso, porque acho que já está na hora de você se permitir ser feliz. Aquela garota... Bom, eu só acho que não há motivos pra você esconder. Queria que você soubesse que eu te apóio. Só isso.
Gabriel sabia que Duda tinha razão. Recordou-se do desconforto que o assolou na noite anterior, quando sentado à mesa, mergulhara em dúzias de drinks em busca de coragem para ficar com Izadora. Cézar havia lhe prometido que a transa daquela noite iria mudar sua vida. E Gabriel, havia prometido a si mesmo, que se tornaria um homem.
Diante daquela situação, Gabriel, pela primeira vez em sua vida, sentiu uma ponta de alívio. Ninguém até então, o havia abordado com tanta convicção a respeito das coisas que ele mesmo não tinha certeza. O misto de vergonha e libertação começou a atenuar a expressão austera que franzia sua testa. Gabriel olhou para Duda. Ainda estava pensativo.
- Obrigado. Acho que é tudo que posso dizer nesse momento.
- Eu sei o quanto essas coisas são difíceis, e conheço uma... – Duda tentava explicar quando foi interrompida pela porta barulhenta que se arrastou atrás dela.
- Bom dia Cinderela intoxicada! – disse em alto e bom som o garoto magro e atlético que usava apenas uma cueca samba-canção e meias brancas até os tornozelos. O bom dia, ao que pareceu, se dirigia certeiramente para Gabriel.
Gabriel não conseguiu responder. Corou de vergonha. Com as bochechas rubras e um sorriso acanhado, apenas acenou. Gabriel não conseguiu fixar os olhos no garoto deixando transparecer um constrangimento astronômico.
- Samuel, seu ordinário! – ralhou Duda com um sorriso sarcástico. – Andando de cuecas? Não está vendo, temos visitas.
Samuel, de pele branquíssima, deu um sorriso indelével à irmã, e escorregou para a cozinha, de um jeito maroto.
- Esquenta não... É o idiota do meu irmão. – disse Duda tentando parecer natural, mas com uma ponta de malícia. – Mas fica despreocupado, ele só anda de cuecas assim aqui em casa mesmo. – Sua fala foi seguida de um sorriso sugestivo.
Gabriel mais uma vez avermelhou de vergonha. Sentia-se perdido entre novas sensações e uma ponta de realidade que predizia alguma coisa. Mas não sabia ainda o que era. Dois segundos depois de vaguear pelo pensamento, Gabriel sentiu a mão de Duda tocar novamente seus ombros.
- Hei, vem tomar café-da-manhã com a gente. Samuel faz um café fantástico – Duda deu uma piscadinha que beirou a malignidade. Gabriel pareceu gostar da brincadeira. Sorriu de volta e juntos desapareceram pelas fitas que separavam a cozinha da sala.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
"Ama os teus inimigos"
Assim Heine confessa:
“Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados.”
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
[ ? ]

Onde está o lado bom daqueles que se dizem à imagem do Criador? Onde estão as mãos ternas e o sorriso solidário? Cadê a sensatez que há muito abandonou todos os homens que regem o planeta? Planeta? Onde estão os seus cuidadores? Onde está o seu destino? Onde está o nosso destino?
Alguém...?
Alguém pode me responder?
domingo, 16 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
CHUVA TEMPORÃ

- Daniel!
Dan, que estava chorando ainda, buscou a direção daquele som. “Sim! Era a voz de Tom”. Ele estava lá de pé, na estradinha que ele mal havia percebido estar colorida novamente pelo tom vermelho da camiseta de Tom. Dan não acreditou naquela imagem. Era seu amor, de volta. Ele começou a correr em sua direção. Tom, não se conteve, e correspondeu àquele impulso que dominou seu corpo por completo. A chuva, o verde que parecia brotar novamente na pouca luz que ainda incidia sobre aquele bosque e o som das folhas que borbulhavam lá no alto das árvores, fez um novo cenário surgir para aquele novo momento. Aquele novo momento fez os dois garotos se tornarem um novamente. Seus corpos se chocaram num abraço eterno. Tudo lá fora parecia em slow motion, fazendo toda aquela dor desaparecer, cedendo lugar para um beijo que estalava sons de sede por um copo daqueles lábios. Ali, no meio do bosque, ignorando o resto de tudo e de todos, eles se esqueceram do mundo. Qualquer problema ou sofrimento, se perdeu naquele beijo. Eles pareciam indestrutíveis juntos.
Após minutos de afagos entre aqueles lábios, Tom se desvencilhou por um segundo levando as duas mãos no rosto de Dan e suplicou:
- Pelo amor de Deus, diz que não acabou? Diz que a gente pode tentar, diz que eu não estou te perdendo de verdade? Diz que eu vou poder viver com você, não importa o que aconteça? Eu sou capaz de qualquer coisa. Mesmo que eu tenha que ficar semanas sem te ver, por causa da sua família. Eu estou disposto a sacrificar...
- Shh – Dan segurou com os dedos de sua mão os lábios de Tom. Com a outra mão, ele segurava o pescoço de Tom, trazendo-o bem próximo de seu rosto, ao ponto de suas testas se encontrarem. – Não diga mais nada. Esqueça tudo que eu disse. Esqueça todas as palavras tolas, esqueça o medo que te fiz sentir. Se você estiver do meu lado, eu também estarei disposto a lutar até o fim. Não vou abrir mão de você... Você é a única razão pela qual eu existo. Diz que me ama?
Tom soltou um sorriso que fez seus olhos já molhados, inundarem ainda mais de água.
- É claro que eu te amo!
- Eu também amo você!
Dan agarrou a mão de Tom e o puxou para debaixo de uma frondosa árvore que fazia a chuva parecer menos pesada, permitindo apenas alguns pingos e gotinhas de orvalho traspassar suas folhas. Ali, debaixo daquela castanheira gigante, Dan e Tom novamente se perderam naquele gesto de carinho que unia seus corações. Era um beijo de alívio, um beijo de reconciliação, um beijo de esperança. Para Tom, os lábios de Dan representavam uma salvaguarda, uma esperança para aquilo que ele sempre havia acreditado. O amor que Tom sentia no calor daquele beijo, fez uma carga de serotonina relaxar todos os seus músculos. Era mesmo um sentimento de segurança, de prazer e de contentamento.
Para Dan, sentir os lábios macios de Tom, dava-lhe força necessária pra vencer seus maiores problemas. Ele sentiu completa confiança, porque sabia que era a escolha correta, a escolha pela felicidade. Mesmo que isso implicasse numa batalha lá na frente, aquele momento deu a Dan uma certeza tão inabalável quanto uma rocha. No fundo, Dan sabia que aquela tempestade, tanto a que tipificava seus conflitos com sua família, quanto aquela que caía sobre suas cabeças, iria mais cedo ou mais tarde, cessar. A chuva temporã, que marcava aquela tarde de domingo, era mesmo fora de seu tempo. Mas Dan entendeu que nada na vida acontecia sem propósito. Ele também entendeu que aquele momento havia fortificado ainda mais, a fortaleza que ele chamava de amor. O seu amor por Tom.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
Dan, ignorando a chuva que surrava seu corpo, caminhou a passos lentos de volta aquele bosque. A chuva imprimia em seu rosto um olhar de apatia, como se estivesse catatônico, em iminência de morte. Mas lá estava ele, caminhando por entre as árvores gigantes que desenhavam um caminho solitário. O cenário era de uma floresta quase morta, que simbolizava talvez uma estradinha que um dia pertenceu a um coração feliz, mas que agora, estava triste e morto. Ao chegar naquela clareira, percebeu que a carteira ainda estava intacta, porém molhada. Dan recolocou a carteira marrom no bolso, olhou em direção à floresta que tinha uma cor acinzentada e contemplou por alguns instantes aquele momento, que de certa forma, configurava uma nova fase em sua vida.
Do outro lado da quadra, totalmente encharcado, Tom estava de volta ao supermercado. Ele procurou avidamente por aquele garoto que havia deixado sentado na mesinha. Nada encontrou. Tom se sentiu abatido. Logo percebeu que o mesmo sujeito corpulento ainda estava escorado no mesmo lugar, na parede da entrada do supermercado. Tom o encarou com um olhar de desespero. Com aqueles olhos, Tom fez uma pergunta. Não saiu palavra alguma, apenas uma imagem de súplica. Inesperadamente, o sujeito, como se interpretasse o olhar de Tom que procurava por seu amor, ergueu um dos braços e apontou em direção à ruela que dava para o bosque.
- Ali? Ele foi por ali? – gritou Tom.
- É... Me parece que ele foi em direção ao bosque.
- Moço, muito obrigado. Muito obrigado mesmo.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
A franja de Tom estava salpicada de gotas minúsculas de água. Em seu rosto, escorriam gotas de lágrimas, morna e salgada misturada àquela água gelada que caíra em suas têmporas. Seu queixo tremia e ele só olhava para suas próprias mãos. No anelar, havia uma aliança de prata, com detalhes fosco e polido. Tom viu naquela aliança uma representação um tanto quanto nostálgica, que remetia ao dia em que ele havia ganhado de Dan. Era sim um símbolo de união, forte e inquebrável. Mas dentro do seu peito, aquela aliança parecia ser ainda mais forte, mais resistente, mais indestrutível. Mas Tom, por ironia, percebera a fragilidade com que esta aliança estava se despedaçando. Ele queria impedir, mas amava demais Dan para pedir que lutasse, mais uma vez, tentando salvar aquela aliança, mesmo que em pedaços. Todo aquele acontecimento parecia o enredo de um filme romântico, desses em que subitamente o desfecho muda de rumo, com um final surpreendente e feliz. Mas Tom temeu que fosse real demais para que tivesse o mesmo destino.
- Não me importo de molhar. – respondeu Tom. – Nada mais importa por agora. Eu só não consigo acreditar que isso está acontecendo. Que tudo isso foi um sonho e que agora, exatamente agora, vou ter que acordar e enfrentar uma realidade que há anos fujo dela.
- Meu amor... Por favor, não diga isso. Eu não vou suportar te ver assim. Faça isso por nós dois. Estamos terminando tudo, mas pelo menos não é por uma briga ou por uma traição...
- Isso mesmo Dan! É exatamente por isso que eu não consigo entender e aceitar. Antes fosse uma traição. Antes fosse por falta de amor. Mas não! Eu ainda te amo. Te amo! E você ainda...
- É claro que eu te amo!
Os dois começaram a chorar, como em uma despedida numa estação de trem. Era tão forte aquele pranto que a chuva lá fora, que tilintava na calçada e no asfalto, parecia não mais fazer som. De pé, a poucos metros de distância, havia um rapaz corpulento, que parecia ser o segurança do supermercado, que por sua vez já estava fechado. Ele parecia ser a única alma viva além de Dan e Tom pelas ruas. Talvez aquele sujeito, que de longe observava discretamente aquela cena triste que acontecia na mesinha da lanchonete, seria a única testemunha que assistiria o fim angustiante daquele relacionamento.
Para Dan e Tom, não importava mais quem eram os espectadores daquela cena. Dan baixou a cabeça, tapou a boca com as duas mãos e segurou o choro que fazia sua cabeça balançar. Ele soluçava e tentava conter o som de seu choro. Tom levou as duas mãos sobre as têmporas molhadas, e se apoiou também para esconder o choro que se manifestava tão copioso como a chuva que batia na marquise.
Era uma despedida. Inimaginável. Que acontecia da forma mais dolorosa e difícil. Dan ergueu os olhos para Tom e ainda chorando, tentou dizer:
- Eu não sei se vou suportar... Eu... Eu não vou poder te chamar mais de passarinho? De poder fazer... Eu... Eu não vou poder te chamar mais de neguinho e fazer cafuné em você, deitado no meu colo? – sufocou Dan, com os dentes cerrados, pela dor que aquelas palavras causavam em seu peito.
Tom ergueu a cabeça para contemplar seu namorado proibido dizer aquilo... E ao ouvir, não conteve seu choro soluçado, e se debruçou sobre a mesa, para jogar pra fora aquela dor aguda que rasgava todas as suas entranhas. Chorou muito.
O que se passava ali, mesmo que alguém tentasse descrever com uma ou duas centenas de palavras, não conseguiria. O choro, parecia de alguém que perdera o bem mais precioso de sua vida. E não bastasse isso, ter que conviver com a certeza de que tudo se foi por causa de algo que não fazia muito sentido. Isso agravava ainda mais a situação. Dan não suportava mais aquilo. Depois de muitas lágrimas e muitas lamentações, ele finalmente disse:
- Eu nunca imaginei que isso aconteceria. Eu sei que esta é a minha sentença de morte. Mas só por hoje, vou dar a eles o que querem. Se eles querem que eu seja infeliz, serei. Se tem que ser assim, vai ser. Eu só te peço perdão por não conseguir ser mais forte. Só te peço perdão por ter que deixar você assim. Mas prefiro que seja assim, antes que algo pior aconteça. Não quero um namoro às escondidas. Não quero ter que viver em segredo e ao mesmo tempo, viver de repressões, de medos, de delongas, tudo ainda com a sombra da incerteza se um dia poderemos viver plenamente, um para o outro, de forma livre, sem lágrimas, sem tristezas, sem dor. Só por hoje, eu te peço que seja livre. Que você voe meu passarinho, e que alcance outros vôos. – e chorou amargamente.
- Tudo bem. Faço isso, porque sei que você é nobre. Sei que você não merece ter que viver uma vida renegada, por conta da gente. Eu sei o quanto isso te afeta e sei que isso pode te trazer conseqüências maiores do que você pode suportar. Vou tentar seguir meu caminho.
Com os olhos repletos de água, Tom se levantou e se foi, em direção ao cruzamento com a avenida principal. Ainda chovia bastante. Dan tentou impedir, mas em vão. A despedida havia se materializado com a imagem daquele garoto desaparecendo na esquina por entre a chuva. Dan amargou o sabor daquela realidade. E chorou ainda por alguns minutos. Com a expressão absolutamente lutuosa, depois de se levantar, ele começou a caminhar em direção à sua casa, mas ao levar as mãos no bolso, sentiu falta de sua carteira. “Ficou no bosque, lá na grama”, lembrou-se.
domingo, 2 de novembro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
Tom não arrancava o sorriso do rosto. Dan sentiu esmorecer suas forças. Aquela beleza que emanava da serenidade de Tom fazia com que um fio de esperança o segurasse naquele despenhadeiro. Dan quis adiar aquele momento, ou talvez até fugir dele. Mas ele sabia que não era de seu caráter fugir de seus problemas. Ele sorriu com sinceridade de volta para Tom. Havia tanta expressão naquele sorriso que jorrava ao mesmo tempo mel e fel. As mãos de Dan encontraram as de Tom. O sorriso desapareceu. Os olhos de Dan se encheram de lágrimas, e logo ele não pode mais conter o pranto que o inundava por dentro. Abaixou a cabeça e chorou. Tom percebeu que algo sério havia acontecido. Pesou seu corpo para frente enlaçando seus braços sobre os ombros de Dan.
- Pelo amor de Deus, você está chorando? O que está acontecendo? Você está me assustando. O que houve?
Dan mal conseguia erguer a cabeça para olhar nos olhos de Tom. Era um sentimento de desonra, de vergonha, ter que olhar para seu único e verdadeiro amor e dizer “acabou”. Um clima horrível se apoderou sobre eles. Aquele clima pesado, denso e sombrio.
- Eu não suporto mais o que está acontecendo. – disse Dan com os lábios trêmulos. Uma tristeza de alma desenhou nele uma face sofrível – meu limite já foi alcançado. Não consigo mais.
A expressão de Tom também era de tristeza, porque ele sabia, nas entrelinhas, o que se passava com seu namorado. Tom sempre soube que os pais de Dan desaprovavam o seu namoro com outro cara e que, por causa disso, perseguiam Dan em todos os seus passos. Aquela dicotomia que partia o coração de Tom agora tomava um sentido mais amplo, porque ele estava face a face com Dan tendo que encarar a seriedade daquele problema, entretanto, de uma maneira nunca enfrentada antes. Tudo parecia ser real demais. Para Tom, o sentimento de culpa que ele mesmo tomava a despeito do que se passava com Dan, era mortal. Tom se sentia transgredindo a boa convivência entre Dan e seus pais. Mas para Tom, negar o que ele sentia por aquele garoto e ter que se abdicar de tamanho sentimento, era trair a si mesmo. E naquele momento, com as palavras de Dan, no ensejo de uma catástrofe, Tom sentiu o desespero e a aflição que mais temia. Sentiu medo de tudo acabar.
- Mas o que aconteceu? – perguntou Tom num momento de súplica.
- Nego, eu não consigo mais sustentar isso. É como a morte. O que eu sinto por você é tão grande, que estou disposto a sacrificar minha própria vida. Mas ter que conviver com o olhar de desprezo da minha família todos os dias, e com a infelicidade de saber que existem chances de algo pior acontecer, é impossível. Essa pressão... Tom... Eu não agüento mais!
O choro de Dan era impulsivo. Ele chorava de dor. Não sabia qual era maior, se a da desgraça de uma vida infeliz por suas escolhas ou pelo fracasso de ver seu amor abortado por algo tão implacável.
A ponta de desespero que germinara no coração de Tom agora tomava proporções astronômicas. Tom sentia ódio. Não de Dan, porque este era seu único porto-seguro, mas da família dele, por ser tão insensível, tão implicante, tão monstruosa. “Por quê?”, Tom fez a mesma pergunta. Por que eles teriam que passar por aquilo? Por que eles eram obrigados a ver sua felicidade cair nas impetuosas cataratas e se transformar em coisa alguma, na inexistência? O sentimento que aquilo provocava em Tom só aumentava o ódio em todo o seu ser. Logo ele chorou. A princípio, o choro era de ira, mas logo, se transformou em desesperança, medo e aflição.
- Perdi todas as minhas forças. Meu pai teve uma conversa comigo na chácara dos meus avós. Meu pai foi categórico Tom, ele não vai me deixar em paz. Se eu continuar lutando por aquilo que eu acredito, poderá me custar um preço que eu não consiga pagar. Meu pai já ameaçou não pagar meus estudos uma vez. Já me ameaçou ter que me mandar embora. Além de todas as represálias emocionais, ele deu pra me cobrar presença em casa. Ter que ver todos os dias aqueles olhares de censura, de rejeição e de recusa é dilacerante. Pra mim, que sempre tive um bom relacionamento com eles... É definitivamente descabido.
- Então quer dizer que não vou ter mais você? É isso?
- Por favor... Não me obrigue a ter que dizer isso. Olha pra mim. Olha pra mim! Eu me sinto um desgraçado. Alguém que está fadado a viver uma ruína. Minha felicidade acabou Tom! Você entende o que é isso? Eu ter que abrir mão do que é nosso, é o mesmo que sentenciar: seja infeliz! Entretanto, é o meu limite por hora. Porque ainda não tenho independência e talvez nem coragem suficiente pra enfrentar minha família de frente, por causa do nosso amor!
- Eu não consigo acreditar...
- Eu sei... Sou um covarde. Sou o rei dos covardes. Sou o maior dentre eles.
- Eu não consigo acreditar...
- Por favor...
Um oceano de lamentações dominou aquelas duas pobres almas. E o céu começou a chorar, anunciando aquela realidade tão frívola e tão devastadora. As primeiras gotas começaram a cair. Era a chuva. O sentimento de cuidado um com o outro ainda estava intacto, apesar da circunstância. Dan logo disse:
- Vamos procurar um lugar que tenha cobertura. Não quero que você se molhe.
Tom levantou-se com a face descaída. Tristeza e ódio. Tristeza e ódio. Tristeza pela perda. Ódio por quem havia lhe roubado.
O vento logo tratou de intensificar a chuva. Ainda era dia, um pouco turvo, com um aspecto tão fúnebre, que não se ouvia outra coisa a não ser o som do vento açoitando as árvores. Os dois estavam sozinhos. Estavam entregues à suas próprias sortes. E naquela breve caminhada até uma rua estreita que dava para um grande supermercado, eles foram em silêncio.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
Ao avistar a entrada de Goiânia, Dan sentiu todo o seu ventre gelar. Aquela sensação era horrível. Mas ele estava determinado e decidido no que ia fazer. Lembrou-se que já havia combinado por telefone, um local para encontrar-se com Tom. Ao passar pelo setor Campinas, Dan diz a seu pai que ficaria por ali. O carro encosta, Dan sai às pressas sem se despedir e sem olhar para trás. Ele toma um ônibus rumo à rodoviária central. Naquele pequeno trajeto, Dan ensaiava, em vão, palavras que explicariam a Tom uma mudança radical em suas vidas. Seu pensamento era tão acelerado, que nada fazia sentido. Desistiu. Ao descer, Dan já procurou naquelas pessoas que transitavam por ali, um rosto familiar. Não encontrou. Um desespero se apoderou dele. Dan quis chorar. Estava muito atordoado, como se estivesse levado uma pancada na nuca. Atravessou a avenida e começou a caminhar em direção à pracinha que ficava ao centro da ilha. De repente, sentiu um cutucão em seus ombros, e ao girar, encontrou aqueles olhos vívidos e acastanhados de Tom. Tom tinha um sorriso estonteante. Moreno claro e esguio, ele irradiava beleza: olhos, nariz, boca e orelhas. Tudo era muito harmônico no rosto daquele jovem de 19 anos. Um abraço se ascendeu entre os dois. Dan quis um abraço demorado, que durasse minutos eternos, mas Tom, sem saber de absolutamente nada do que se passava, na mesma rapidez com que o abraçou, já desgrudou logo em seguida, para fitar os olhos de Dan e dizer:
- Ai que saudade! E aí... Como foi lá? Como foi a viagem?
- Foi bom. – disse Dan com uma expressão inerte. Estava inquieto. Ele tentou disfarçar sua aflição e urgência em conversar logo com Tom, mas não conseguiu – Tem como a gente conversar agora?
- Claro – sorriu Tom.
- Pode ser em outro lugar? Não quero ir pro shopping... Quero um lugar mais reservado. A gente pode ir pro bosque?
- Sim passarinho – disse o garoto carinhosamente. “Passarinho” era um símbolo, que nascera de um pseudônimo criado para encobrir suas identidades em seus blogs. Um chamava o outro de passarinho. Um era pardalzinho. O outro, joãozinho-de-barro. E assim assinavam em seus comentários, sempre que um escrevia para o outro, a fim de que somente eles dois soubessem o que aquilo significava.
E lá se foram os dois garotos. Tom não parava de falar. Começou a relatar seu fim de semana. Dan, não queria ser indiferente. Ainda conseguia responder com um sorriso esboçado nos lábios, mas era um sorriso que o fazia chorar por dentro. Ele queria gritar, esbravejar... Mas tudo que conseguia fazer era olhar com um amor singelo para Tom, que continuava relatando os acontecimentos. Bons, por sinal.
Lá no alto, com o sol já entreposto entre nuvens acinzentadas, uma massa negra e carregada começou a se aproximar do eixo central que estava sobre suas cabeças, anunciando fortes possibilidades de chuva. O vento, agora intensificado, fez todas as folhas secas daquele bosque planar. Dan, querendo fugir de uma ou duas pessoas que caminhavam pelo bosque, enveredou por um pequeno trecho de grama meio seca, que dava para uma clareira onde árvores a cercava. Pareceu, aos olhos de Dan, talvez o cenário um pouco ameno, para contrabalancear o enredo pesado daquele diálogo. O diálogo que estava por vir.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
Numa parte bem distante da fazenda, depois da plantação de cana-de-açúcar, sentado em cima da porteira de cerejeira, Dan chorou. E chorou por minutos a fio. Olhou para o céu, e questionou Deus. Quis saber todos os porquês. Por que tanto sofrimento? Por que ele tinha nascido daquele jeito, fadado à desgraça e à infelicidade? Por que aquilo era errado? Por quê? Dan não conseguia encontrar saídas. Parecia mesmo que ele era aquele animal no matadouro. E naquele momento, quando ele tentou se esquivar do seu fim, ele viu três grandalhões lhe agarraram pelos braços e pernas, e levaram-no até o seu destino: o inevitável. “Será que eu vou conseguir? Meu Deus, me ajuda!”. Aqueles pensamentos possuíram Dan de forma fugaz. Eram pensamentos que espinhavam sua carne.
Um tempo mais tarde, ainda na fazenda, ele recebeu uma ligação. No visor do celular, uma foto de um garoto com sorriso alegre apareceu. Era Tom. Dan começou a tremer. “Não posso transparecer o que estou sentindo. Preciso manter isso em segredo, até que eu fale com ele pessoalmente”, pensou. Dan suspirou três vezes, olhou novamente para o celular e atendeu.
domingo, 26 de outubro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
- Meu filho, acho que você já sabe o que eu quero conversar com você.
Dan não respondeu. Seu pai continuou.
- Não é fácil ter que conviver com suas decisões. Sua mãe e eu estamos sofrendo muito. – nesse momento, seus olhos se encheram de lágrimas – Não sei se suportaremos isso.
- Pai, eu não mudei. Eu continuo o mesmo – disse Dan com um aperto profundo no peito. A coisa que ele mais odiava no mundo era ver o sofrimento de alguém, sabendo que ele mesmo era o causador. Neste caso, havia um agravante maior: eram seus próprios pais que sofriam. Dentro de si, Dan não sabia nem mesmo explicar a confusão que havia se instalado, desde que resolvera levar ao conhecimento de seus pais um segredo até então guardado a sete chaves: sua homossexualidade. Era evidente que essa decisão implicava em remar contra a maré. Com uma mãe absolutamente arraigada a princípios religiosos e um pai machista e autoritário, Dan se viu em um mar de conflitos, praticamente à deriva, sem possibilidades de salvamento. Sua única fonte de perseverança era seu namorado, Antônio, garoto que fundamentava toda existência de Dan, que incendiava seu coração, dando-lhe razões de sobra para lutar. Sim, eles se amavam. E se amavam muito. Mas dentro daquele contexto, Dan se dividia ao meio. Era uma tristeza de morte, ter que ver sua própria família, a quem sempre foi muito ligado, sofrer por ele ser quem ele era: gay.
- Meu filho, não me venha com essa história! Você está indo pelo caminho errado. Eu e sua mãe não estamos agüentando ter que ver você se desviando por esse caminho.
- Pai, que caminho? Não é questão de que caminho seguir, é uma questão de ser quem eu sou. Pai, pelo amor de Deus, eu não estou fazendo nada de errado...
- Dan, isso não é certo! Não adianta você querer mudar isso. Não é certo e eu não vou mudar de opinião. Sua mãe também não. Você já parou pra pensar que daqui a pouco todo mundo vai tá sabendo dessa história? Você consegue imaginar o quanto isso será vexatório?
- Pai, eu não quero envergonhar o senhor... Mas só me responde uma coisa... Por que o senhor e a mamãe não podem me aceitar do jeito que eu sou? Vocês têm vergonha de mim, é isso? Só porque eu gosto de um garoto? Meu Deus, pai, o Antônio ia sempre lá em casa... Antes de vocês descobrirem sobre a gente, quando aos seus olhos ele era apenas mais um dos meus amigos, ele comeu na mesma mesa que o senhor, ele sentou no mesmo sofá que o senhor, a gente brincou de baralho na mesma sala... E agora o senhor o trata como se fosse um estranho?
- Não venha com esse papo, porque eu não sou obrigado a aceitar ele dentro da minha casa. Se você quer isso pra você, agüente as conseqüências.
- Pai, você não tem idéia de como eu tenho sofrido com isso. Eu sei muito bem o que eu estou fazendo. Eu só queria ser feliz... Mas desse jeito, eu tô sofrendo muito, com você e a mamãe agindo assim.
- Muito bem dito: agimos assim porque não concordamos e jamais concordaremos com sua atitude. Não adianta você pensar que te daremos folga. Não adianta você querer achar que nos acostumaremos com a idéia de ver você com rapazes. Não. Eu e sua mãe não iremos te dar espaço. Não quero saber de você saindo todos os dias com esses amigos seus que só fazem sua cabeça.
- Mas pai, eles não fazem minha...
- Não me interessa! – disse o homem de cabelos grisalhos num tom de raiva. Sua expressão agora era de absoluta autoridade – De hoje em diante, você pode esquecer essa comodidade com que levava sua vida. Não quero te dividir com essas pessoas. Você é meu filho, e em poucos dias, vou te perder pro mundo, você vai terminar sua faculdade e vai seguir seu caminho. Enquanto você estiver dentro da minha casa, terá que me obedecer. Não abriremos mão de estar com você. Não quero te ver saindo pela porta e indo pra lugares que eu e sua mãe desaprovamos.
Dan começou a chorar. Era um choro baixinho, de sofrimento. Com aquelas palavras, seu pai estava lhe tomando o direito de viver. Estava pedindo algo que talvez ele não fosse suportar. Por um lado, ele sabia que sua família, em suas próprias razões, tinha o direito de requerer um filho que julgasse perdido. Dan continuava acreditando que seus pais estavam errados naquele julgamento, entretanto, ele sempre preservara o bom relacionamento com seus pais. E ter que se opor, até aquele momento, era muito doloroso. Por outro lado, Dan também sabia que se abdicar de um amor tão grande, como era o dele por Antônio, tiraria todo e qualquer motivo para sorrir. Arrancaria, como se arranca uma pequena árvore pela raiz, toda aquela vida que brilhava em seus olhos, que só Antônio sabia lhe dar. Para Dan, com aquelas palavras de seu pai, o golpe do martelo na fronte do novilho, já havia sido desferido. Dan sentiu suas mãos arderem. Não enxugou uma lágrima sequer. Olhava para as folhas úmidas que atapetavam o chão. Viu formigas indo e vindo e imaginou como a vida delas seriam melhor que a sua.
- Pensa bem nas suas escolhas meu filho. Eu te criei pra ser homem – explicou o senhor de olhos marejados – e não sei se tenho mais esperanças em você. Com você agindo assim, está me fazendo pensar em coisas que nunca pensei antes. O que será de você?
Dan quis dar-lhe explicações. Explicações que já estavam prontas em sua cabeça, mas que sabidamente reconhecia que não surtiriam efeito algum naquela circunstância. Dan pensou em Antônio. O seu Tom. Dan, ao mesmo tempo em que sentia por ele um amor profundo, sentiu-se sujo, pecador, usurpador das leis divinas e dos homens. Era uma mistura de sentimentos que ferveu suas têmporas. Ele sempre havia temido que aquele momento chegasse. Seus pais, até ali, agiam com indiferença. Isso por si só, já causava muita tristeza no coração de Dan, porque ele sabia que seus pais condenavam seu namoro e sua possível opção sexual. “Pai, não é uma questão de opção, porque se fosse, não iria optar por um sofrimento tão grande, que causo em vocês”, explicou Dan aos seus pais, numa última conversa que tiveram há meses. Todos aqueles minutos que se passaram ali, durante aquele diálogo penoso, provocaram em Dan uma tristeza carregada de impotência, de fracasso ante uma luta. Ele só pensava em Tom. Ele só pensava no que poderia acontecer. Dan temia que seu pai, um policial implacável, de natureza extrema e viril, perdesse a cabeça num momento de raiva. Que tomasse alguma atitude que o prejudicasse, como expulsá-lo de casa ou não pagar mais seus estudos. Mesmo sendo um bom pai, cuidadoso e de certa forma amável, Dan já havia tido provas de que seu pai faria isso. Entretanto, Dan não queria testar os limites daquele senhor carrancudo. E a partir daquele momento, esse inevitável medo passou a ser palpável e muito real.
Ainda sentado, Dan sentiu um ódio corpulento e brutal tomar conta de todo o seu ser. Ele fechou os punhos, e mesmo sem querer fez um sinal de agressividade, introjetando todo aquele rancor para dentro de seus pensamentos. Dan ergueu a cabeça fitando seu pai com olhos encravados e perguntou, de forma ríspida:
- Já acabou?
- Já – respondeu seu pai, com um olhar de decepção, por talvez não ter obtido a resposta que esperava de Dan, de arrependimento e mudança de atitude.
Dan levantou abruptamente, e se foi, de volta pelo caminho que dava para a sede da chácara. Com um olhar periférico, percebeu que seu pai havia ficado onde estava. Talvez refletindo naquela conversa mal-sucedida. “Que ele fique por lá e não volte nunca mais!” praguejou Dan em pensamentos.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
CHUVA TEMPORÃ
Capítulo III
Dan abriu os olhos e ainda meio torporoso de seu sonho quase palpável, virou-se e respondeu:
- Senhor. Tô aqui pai. – Ao se sentar na rede, o que ele via adiante, a cerca e a grama, parecia girar. Olhou de soslaio para sua esquerda e viu a poucos metros, atrás dos velhos coqueiros, seu pai acenando e caminhando em sua direção.
- Dan? – questionou seu pai já mais próximo.
- Oi pai... Desculpa é que eu acho que cochilei. – respondeu sem olhar diretamente para os olhos daquele senhor de cabelos grisalhos a sua frente.
- Tudo bem. Eu queria levar um papo com você. Será que a gente podia fazer isso lá em baixo? – perguntou ele com a voz meio trêmula.
Ao ouvir aquilo, Dan soube exatamente o que seu pai queria. Por dentro, sentiu uma navalha gelada cortar suas alças intestinais. Ao mesmo tempo, seu coração denunciava uma sensação de perigo, com batimentos acelerados e uma inquietação descontrolada.
- Claro. Lá na beira do rio? – concordou e perguntou logo em seguida, disfarçando sua irritação.
- É. – silenciou.
Seu pai que ia à frente, pulava uma cerca de arame liso e falava alguma coisa a respeito da noite passada. Dan não conseguia assimilar nada do que ele falava, e só pensava no que viria depois daquele trecho, lá debaixo das árvores que margeavam o rio. Sua cabeça parecia pesar, seu estômago teimava em doer, e seus sentidos estavam mais alerta. Dan, por um segundo, pensou em desistir daquela caminhada, como se a linha de chegada simbolizasse um mal iminente. Lembrou-se do dia em que foi com seu tio Vladimir assistir o abatimento de um novilho. O animal caminhava inquieto, como se pressentisse que a morte estava a poucos metros de seu focinho. Num dado momento, o animal titubeou e empacou no meio do caminho, sendo necessária a intervenção de três peões do matadouro para que fosse consumada sua morte. Aquela cena causou certo desespero no coração de Dan. E ali naquele trecho estreito, caminhando logo atrás de seu pai, Dan se imaginou no lugar do pobre novilho, sem saída ou chance de escapar com vida. “Será que saio vivo dessa?”, questionou.
[Continua...]

